sexta-feira, março 28, 2008

Horácio.

"Horácio entra no prédio e as mariposas continuam a persegui-lo, aquelas malditas borboletas noturnas, delicadas vampiras devoradoras de sonhos. Em cada passada nos degraus das escadas sente comprimir no bolso da calça o isqueiro que carregou todo o dia. Esta pressão próxima a virilha lhe causa uma pequena excitação ainda que lembre da morte em seus braços. Passa por sua vizinha, dona Elza, que sobe vagarosa, com dificuldade, pernas inchadas varizes estufadas. Ele segura sua sacola e a acompanha até a porta de seu apartamento que fica um andar acima do seu. Horácio meu filho, aquele vazamento na sua sala, você já providenciou o conserto? Ele entrega a sacola a mulher que espera pela resposta. Ainda não senhora, tô esperando ele chegar, diz apontando para a porta em frente. Como assim? Ele já está aí meu filho. Já chegou, mas anda meio silencioso. Ele faz cara de surpreso e não sente desejo de falar sobre vazamentos, não é um assunto dos mais apreciáveis depois de um dia duro, de perseguições de mariposas, de confrontos com dragões que torturam alma e mente. A boca da mulher abre e fecha e sua voz torna-se aguda a ponto de quase romper uma veia saliente no meio de sua testa. Não acompanha suas palavras, está anestesicamente cansado. Vazamentos são perigosos, apodrecem as paredes, enfraquecem a estrutura da casa, provocam desabamentos, ela diz. Horácio suspira, vira-se para a porta do vizinho e toca a campainha.

Um nariz oponente e aristocrático o atende. O homem é corpulento, seus grandes olhos expressam inteligência e a constante soberba de ser um artista erudito. Consegue perceber ao fundo os grandes móveis de madeira pesada, as cortinas escuras e um emaranhado de esculturas de tipos diversos e imagina no peso sobre sua cabeça todos os dias, há objetos demais naquela casa que torna-se menor quando o homem toca o piano, mas esse ele não consegue ver.

Horácio explica a situação sob olhos incrédulos, desconfiados e compreende pela primeira vez o que sentem os vendedores de porta e as Testemunhas de Jeová. Quanto mais se explica, mais sente seu ventre rastejar no chão como um lagarto, prestes a ser esmagado por imensos pés. Não parece haver nada de errado com a instalação da minha banheira, diz o homem, Você está certo disso que acaba de me dizer? Horácio está certo de que acaba de ser esmagado. É mesmo um lagarto comendo poeira. Apenas sacode a cabeça em confirmação e a senhora interfere na conversa. Ele tem uma infiltração no teto da sala que é o seu banheiro. Sei disso porque conheci esse apartamento. Seu banheiro fica em cima da sala dele, ela diz e continua a explicar de forma mais esclarecedora ao homem os possíveis motivos do problema em questão. Horácio pensa que todas as vezes que aquele homem usa o banheiro, tem sua sala de estar por esgoto. A humilhação fica mais evidente e o músico aumenta de tamanho, o nariz parece cantarolar pois empina-se querendo tocar os céus, homenzinho soberbo, pensa, e sua sala de estar é seu esgoto particular. Não havia ali espaço para discussões, Horácio é o morador de seu esgoto, sua fossa. Não consegue prosseguir e o melhor a fazer é levar o caso ao síndico do prédio.

Deixa dona Elza falando com o homem nada aprazível e desce silencioso os degraus, como um rato que vai para o refúgio dos esgotos frios e úmidos. Entra em seu subterrâneo e é inevitável olhar para aquele lago verde-musgo repulsivo que contraria as leis da gravidade e suas ramificações estende-se como teias numa rede que parece querer aprisioná-lo. A coloração está mais forte, os pingos d´água são despejados em menor intervalo de tempo. Perde o pouco de fome que sente."


[trecho A Guerra dos Bastardos _ ana paula maia]


*That´s all folks*

2 comentários:

Diz disse...

Menina, vc é ótima, lembra bons escritores, os melhores.
parabéns. Vou comprar. Desobri agora seu nome num blog do José Eduardo Agualusa, que parece não existir masi.
Abs, Laura
tb escrevo, ainda não tenho livro publicado.
www.lauravive.blogspot.com
tenho mtos contos ai no blog

ana paula disse...

Obrigada Laura!
Volte sempre.
:)