segunda-feira, janeiro 04, 2010

Puta natal - o conto.

O fim já passou. O natal já passou mais ainda e eu ESQUECI de publicar aqui no blog o tal conto natalino que prometi. Fiquei quase duas semanas longe do computador.
Bem, agora segue o conto atrasado. Mas não deixa de ser uma história de natal, mais ainda, uma história que pode acontecer em qualquer dia do ano.

Puta natal


Aparecida Regina sempre foi uma filha da puta. Quando entrou na adolescência se tornou uma. Agora, Aparecida Regina é puta e filha da puta. A mãe puta morreu de cirrose na penitenciária enquanto cumpria pena por ter matado uma criança de cinco anos de idade. A menina se chamava Camille e gostava de fita amarela nos cabelos. Camille morreu espancada pela mãe puta de Aparecida Regina e enterrada no quintal da casa da família rica da menina. Tentou culpar o caseiro pelo crime e confessou após ser estuprada cinco vezes na delegacia. Depois foi estuprada outras sessenta e duas vezes na penitenciária. E já estava louca quando morreu de tanto beber. Dizia que a menina era a mais linda que já viu. Quando perguntavam o motivo do crime, desconversava. Alguns diziam que ela queria oferecer a menina num ritual satânico e que a coisa deu errada. O coração da menina não estava no peito quando foi desenterrada. O coração de Camille, ninguém nunca soube aonde foi parar.

Aparecida Regina nunca gostou da mãe e sempre desconfiou de outros crimes seus, nunca investigados. Adotou o nome da menina como seu nome de puta porque além de bonito era o que trouxe justiça à tona. Camille não foi a primeira criança morta por sua mãe. Ela obrigou Aparecida Regina a abortar quatro vezes. Quatro vezes puxou a descarga.

Faz muito calor nesta noite de véspera de natal e quase não se vê ninguém perambulando pelas ruas. Existe uma atmosfera densa e áspera que maltrata a noite.

__ Tá foda hoje, hein, Rosália!

__ Nem me fala.

__ Tô cheia de fome e sem um puto pra comer. Basta um boquete e pelo menos eu como hoje.

__ Paguei dois agorinha.

__ Então até que pra você tá muito bom. Véspera de natal, esses filhos da puta só querem comer peru. O ano inteiro atrás de buceta e agora é só peru.

Rosália dá uma gargalhada.

__ Essa é boa, Camille. A melhor da noite. Daqui a pouco vou pra casa do Wanderson comemorar a noite com o pessoal dele.

__ O namoro firmou mesmo né? Já contou que é puta?

__ Ainda não. Vou contar depois do revéillon.

Ficam em silêncio por algum tempo. Passam dois carros e nenhum pára.

__Tão dizendo aí que a Celeste tá grávida.

__Puta engravidar... tinha que tomar umas porradas.

__ Acho que tentou dá o golpe num sujeito aí, mas o cara se mandou.

Aparecida Regina traga o cigarro até a última ponta e com um peteleco ele voa longe.

__Tem mais é que se foder mesmo. Se vier me pedir ajuda vou mandar a merda. Tá vindo um carro aí __Ela faz sinal, se exibe. __ Filho da mãe.... não parou.

Ela arranca a peruca loira e sacode os cabelos ralos. Faz meses que sofre com queda de cabelo, mas ainda não foi ao médico.

__Só mais cinco minutos e eu vou pra casa. Tu me empresta algum dinheiro?

__ Dá não, Camille, tô precisando mesmo desse aqui.

__ Tu é foda, hein gorda! Vou embora logo. Essa chuva tá aumentando e não vai aparecer mais ninguém mesmo.

Aparecida Regina dá umas voltas pelo quarteirão, tenta outros pontos e não consegue cliente. Está com muita fome. Não comeu o dia todo.

Entra no bar do Azalão e ele não lhe vende fiado. Os outros estão fechando. A chuva atrai uma noite embaçada que espanta até as sombras.

Tem um canivete na bolsa e pode tentar assaltar alguém, mas não aparece ninguém. Quanto mais anda, mais sente o estômago doer. Pensa em chorar, mas pensa mais ainda na fome que sente; esta é absurda.

Um cachorro começa a segui-la. Um cão sem dono como ela. Um vira-lata raquítico que a segue até em casa. Ela deixa o cão do lado de fora da porta e ele permanece sentado. Tira suas roupas, veste um roupão amarelo surrado e bebe dois copos de água da bica. Está sozinha em casa. Sua casa são dois cômodos nos fundos de um quintal ao lado de outras casas como a dela. Sente muitos cheiros. Doces e salgados. Assados e frituras. Há também risos e cumprimentos.

Aparecida Regina não é bem aceita pelos vizinhos pouco menos miseráveis que ela. Ainda que se acredite em solidariedade entre iguais, só estando em pé de igualdade com tamanha pobreza é que se percebe que isso não existe entre esses iguais. Mais um para comer é menos comida que sobra no dia seguinte. A maioria dos vizinhos ganhou esmolas em dobro e donativos. Quem tem filhos pequenos compadece os corações dos que decidem se compadecer nessa época. Ela não tem ninguém, sendo assim, falta apelo para conseguir donativos. Nem uma mãe aleijada, um filho pequeno ou um pai moribundo.

Não agüenta de tanta fome. Abre a porta e deixa o cachorro entrar. Serve ao bicho água da torneira até se fartar. Embaixo da pia é onde guarda um facão enferrujado. O cão vai se deitar num canto do cômodo. Ela amola o facão na beira da pia de mármore enquanto sente entrar pela espremida janela um ar mais fresco trazido pela chuva nesta véspera de natal. Pensa em quem poderia pensar, em quem gostaria de encontrar, mas não se lembra de ninguém. Não há ninguém em quem pensar ou encontrar. Amola o facão até sair faíscas e deixa-o em cima da pia.

Dá uma volta pelos dois cômodos; incomodada sai de casa. Revira algumas sucatas de um dos vizinhos num canto do quintal e volta com uma barra de ferro.

Aparecida Regina faz um carinho no cão que está amuado num canto. Olha bem para o animal e seus olhos são vazios. Não há nada naquele olhar. Parece ser oco, o animal. Segura bem firme a barra de ferro e com duas pancadas deixa-o agonizando pelos poucos segundos que lhe restam. E este é o tempo suficiente para ir até a pia e amolar mais um pouco o facão. Estende o cão no chão e desmembra-o rapidamente. Sabe cortar exatamente nas juntas. Depois arranca o couro do animal. Coloca uma panela grande para ferver água e vai jogando os membros ali dentro.

Para temperar têm: sal, pimenta do reino, três dentes de alho, manjericão roubado da pequena horta do vizinho, e um pouco de banha de porco. Cozinha tudo primeiro. Depois escorre a água e deixa a banha de porco esquentar. Tempera o cão com tudo o que tem. Frita-o e serve com folhas de manjericão.

Faltam quinze minutos para a meia-noite quando vai até o quintal. Devolve a barra de ferro aos entulhos e com as mãos abre uma cova onde enterra o coração do cão. Ainda está quente quando o coloca no buraco.

Dentro de casa, acende uma vela e ora a meia-noite em ponto. O que orou não pôde ser ouvido. Nunca se soube para onde foram suas orações, assim como o coração de Camille.



*That´s all folks*





5 comentários:

Simone Campos disse...

Muito bom. Gostei desse.

Anônimo disse...

muito bom mesmo,

André Victor disse...

Se Entre Rinhas fosse um cd, essa seria a bonus track.. kkk

Anônimo disse...

hahahahahahaha.....gostei dessa!
;)
maia

Sanderson A. Moreira disse...

Caraca... Amei... Dark... Cara, foi super!

SAM (^_^)