domingo, julho 23, 2006

I´m going through the wall…

Nas últimas semanas venho acompanhando nos jornais uma série de lançamentos de livros sobre guerras. Novos autores estréiam com narrativas sobre misérias. E os nem tão novos assim. O pano de fundo é sempre o Oriente Médio. E sempre alguém tem uma ou outra solução. Também temos nossa cota, nossa guerra. E vira e mexe, abordagem sobre o tráfico. E outro espetáculo.

Por acaso, a convite de dois amigos, fui parar no Sergio Porto. Estava acontecendo o evento CEP 20.000. Fui de chinelo de dedo, bermuda e um blusão vinho de um amigo, já que fui visitá-lo rapidinho ainda de dia. Anoiteceu, esfriou e nada combinava. Estava bem mal vestida, mas bem acompanhada. Mas isso aqui é Rio de Janeiro e ninguém estranha você de chinelo em casas de show ou teatros.

Além de shows, houve uma pausa para a projeção de um curta-metragem documentário. E é sempre aquela merda. Eles retomaram as entrevistas com um sujeito chamado Macarrão que é rapper ou algo do gênero que participou também do documentário (longa) Fala Tu.

A gente senta e vê o sujeito falar em seu “idioma”. É divertido, engraçado. Todos dão risadas e o fundamento eu nunca sei qual é. “Quero mostrar minha arte. Minhas idéias”. O discurso é sempre por aí. O tal Macarrão estava lá. O cara já marrento, adquire status de celebridade. E gosta.

Porém, o fato dele ser perseguido por uma câmera e ficar contando sobre sua vida, mostrar a casa pobre onde mora, a madrinha, o cachorro, o vizinho, o boteco onde toma uns gorós, enfim... eu não entendo o motivo. Mas é que o cara mora no morro, canta indignado, (eu nunca entendo o que cantam), mas são sempre indignados. Gosto dos indignados. Gosto de punk. Bad Religion. I´m going through the wall. Mas é que eu não entendo esse cunho social de seguir a vida de um sujeito durante dias e fica aquele rema-rema. Aquela merda. E todo mundo acha o máximo. O máximo ver o vira-lata do cara. A casa pobre com o pôster do time de futebol na parede que está só no tijolo. Aí, o mesmo povinho desce a rua, segue pra Botafogo e vai pro Estação assistir ao último filme do Ozon ou do Von Trier... com a mesma empolgação, diga-se.

Eu entendo a empolgação em torno do Ozon e do Trier, em torno de filmes de verdade, mas ainda continuo sem entender a empolgação em torno da miséria sem uma manifestação artística pra valer. Estou esperando ansiosa pelo filme Estamira. Aquilo sim parece ter poesia. Arte. Agora, reunir meia dúzia de maconheiro (nada contra os maconheiros, mas é só pra enfatizar mesmo) pra falar sobre o outro lado da condição humana meramente em troca de conhecer através das imagens uma outra realidade. Mais? De novo? Pra quê?

Mas é pelo show. O cara ganha status de celebridade, tem seus dia-a-dia registrado, as coisas mais ordinárias e sem interesse, mas ele é marginal. É periférico. Nunca fará parte do mainstream que sobe lá pra tentar entender e registrar aquela miséria, aquela boca sem dente, aquele português errado, aquelas gírias, aquele gueto. Eu sinto pena... putz, sinto pena.
Isso os torna mais atrativos do que bichos em cativeiros, aliás eles são bichos em cativeiros, por isso é necessário registrar suas imagens e difundi-las. Nunca vi um chimpanzé a não ser no zoológico. Minha vó que nunca foi ao zoológico também sabe o que é um chimpanzé, ela viu na tv, na revista ou num jornal. Viu registrado em algum lugar.

Parecendo valorizar a cultura de um nicho, você acaba por condená-la a ser apenas daquele nicho. Sim, vamos lá, é divertido. É como uma prostituta. Você se diverte com ela. Paga vinho ou champanhe. Apresenta aos amigos “minha prostituta”, trepa até sem camisinha... mas ela nunca deixará de ser apenas uma prostituta. Você vai casar com a outra.

Quanto mais vejo esse povo abrir as portas de suas casas, expor suas famílias, suas histórias tristes de doenças, mortes pela polícia, pais ou filhos condenados, falta de dinheiro, mais percebo o quanto esse povo é fudido por todos os lados. Não só pelo descaso do governo, mas pela exploração da sociedade mesmo. Que transforma a miséria do outro em espetáculo de 20, 30, 40, 60 minutos. O quanto de filme tiver no rolo. E até as prostitutas são mais dignas, pois sabem seu papel.



*That´s all folks*

4 comentários:

Anônimo disse...

Via recanto das letras cheguei até aqui... e adorei! Abraços.

Henrique Araújo disse...

É mais ou menos isso. É a tal da classe média ilustrada, que faz os seus filminhos e depois sai em busca de ganhar edital de prefeituras do PT ou de qualquer outro partido. Um bando de cretinos, sem medo da palavra. É fácil, bem fácil, entrar na droga de uma favela e registrar a droga da vida do cara, da família dele e tal. Ando até o pescoço com esse tipo de gente, desculpa ter desabafado por aqui.

Heartbreak Hotel disse...

é mesmo verdade que as pessoas aí no rio vão em casas de shows e teatros de chinelo e bermuda?
estou indignado!

ana paula maia disse...

Henrique, indigne-se sempre. Esse canto aqui serve pra gente mastigar e regurgitar. Acho tudo isso uma coisa lamentável.

Ah... "come closer" sempre teve essa onda no Rio. Sair largadão. é fácil ver artistas assim tb. Eu não gosto, mas às vezes no embalo vc se encontra assim. Aqui as pessoas se preocupam menos com isso. Muitas vezes vão a praia, depois na casa de alguém e estica num barzinho.