quarta-feira, maio 28, 2008

Impressões da destruição.

Numa rápida olhada em dois textos vindos de lugares tão distintos, encontrei logo nas primeiras linhas a composição de histórias muito semelhantes. Não sei se no todo, pois não li os livros na íntegra, porém é assombroso a semelhança do início.

O primeiro foi escrito por Mia Couto (moçambicano). O segundo por Comarc McCarthy (norte-americano).
Ambas as histórias começam com uma terra devastada pela guerra. Ambas as histórias começam com um homem e uma criança numa estrada desolada. Os cenários são apocalípticos. Acho que devastações deixam impressões comuns em qualquer continente.

Assim começa o livro "Terra Sonâmbula" - Mia Couto.

"Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir. Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante."


Assim começa "A Estrada" - Comarc McCarthy:

Quando ele acordava na floresta no escuro e no frio da noite, estendia o braço para tocar a criança adormecida ao seu lado. Noites escuras para além da escuridão e cada um dos dias mais cinzento do que o anterior. (...) Como peregrinos numa fábula engolidos e perdidos nas entranhas de alguma besta de granito. Buracos profundos na pedra onde a água gotejava e cantava. Contando no silêncio os minutos da terra e suas horas e dias e os anos sem cessar. (...) Com a primeira luz cinzenta ele se levantou e deixou o menino dormindo e caminhou até a estrada e se agachou e estudou a região que fi cava ao sul. Árida, silenciosa, sem deus. Ele achava que o mês era outubro, mas não tinha certeza. Fazia anos que não tinha um calendário. Estavam seguindo para o sul. Não haveria como sobreviver a mais um inverno ali. Quando havia luz suficiente para usar o binóculo ele observou o vale lá embaixo. Tudo empalidecendo na névoa. As cinzas macias voando em espirais vagas sobre o asfalto. Ele examinava o que conseguia ver. Os pedaços da estrada lá embaixo em meio a árvores mortas. Procurando alguma cor. Algum movimento. Algum traço de fumaça subindo no ar. (...) Ele observava o menino e olhava para a estrada lá adiante através das árvores. Aquele não era um lugar seguro. Podiam ser vistos da estrada agora que era dia.

That´s all folks*

3 comentários:

Léo e só disse...

Oi Ana

sei que é só uma opinião passageira, mas A estrada é bom demais!

é engraçado, uso um termo tão otimistas, para relatar minhas impressões sobre um livro tão cinza!

abs

ana paula maia disse...

Oi Leo, bom saber.
Vou ler o livro todinho.

abçs,

Anônimo disse...

Bem, se formos procurar semelhanças entre romances acharemos várias. Todavia, vale lembrar que o livro de Mia e o de MCarthy são bem diferentes no desenrolar, na essência.

Rui. (espereeveja.blogspot.com)