sábado, julho 04, 2009

Resenha do livro no Jornal do Brasil

Resenha publicada hoje no Jornal do Brasil, escrita por André de Leones, sobre o livro Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos.

Link da resenha no site do jornal.
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Os sentimentos a cargos de cachorros e porcos.

Ana Paula Maia escreve novelas em que os personagens vivem o nada

Jornal do Brasil

André de Leones*

Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, de Ana Paula Maia, reúne duas novelas povoadas por seres humanos simples e, portanto, reduzidos a sua essencialidade: trabalhar, comer, beber, jogar, fazer sexo e matar. É um mundo de pobreza extrema, em todos os sentidos. Desprovidas de quaisquer transcendências, as personagens sobrevivem dia após dia após dia como se não houvesse mais nada. E parece mesmo que não há.

Na novela que dá título ao livro, na qual o leitor se move entre rinhas de cachorros e porcos e seres humanos abatidos, Edgar Wilson é um desses personagens-esfinge, alguém que não faria feio em um romance de David Goodis. Ele vai de chiqueiro (humano ou não) em chiqueiro fazendo os seus trabalhos. Suas funções compreendem desde o básico (transportar e abater porcos) até o, digamos, complexo (auxiliar um amigo, Gerson, a recuperar um rim que doara para uma irmã ingrata, ou tomar parte de um falso sequestro que termina de maneira tragicômica).

Aqui e ali, porcos e seres humanos se equivalem. Parafraseando a "filosofia" de um personagem do livro, ambos foram feitos para andar por aí cabisbaixos a fim de enxergar imediatamente o que pode ser agarrado e deglutido. Sobrevivemos assim, e a sentimentalidade fica a cargo dos cachorros, que podem até devorar os seus próprios donos, se necessário, mas o farão com lágrimas nos olhos.

O caráter episódico e fragmentado da novela, em que cada capítulo pode ser encarado como uma narrativa completa, ajuda a ressaltar um certo quê de coisa quebrada, como se víssemos ou entrevíssemos os personagens pelos reflexos de um copo que se espatifou.

Na segunda novela, "O trabalho sujo dos outros", somos apresentados, dentre outros, ao lixeiro Erasmo Wagner, indivíduo um (ou meio) degrau acima dos miseráveis que vivem pelos lixões catando restos. Pode-se dizer que Wagner conhece a sociedade por meio dos excrementos que ela produz, tratando inclusive de hierarquizá-la sob esse ponto de vista.

Estamos em um mundo (não se iluda: é o nosso) em que bueiros entupidos cospem os dejetos para o meio das ruas, e o caos se instala quando os lixeiros resolvem entrar em greve. Um mundo sufocado, incapaz de se livrar do próprio mau cheiro e do lixo que produz, povoado por indivíduos livres "para recolher todo o lixo do mundo se precisar" e que odeiam "quase tudo o tempo todo".

Um, por assim dizer, "personagem" importante em "O trabalho sujo dos outros" seja o chorume, uma espécie de líquido originado do lixo, "o fim de todas as coisas", um "lago deteriorado e maldito", as "lágrimas deterioradas de olhos flagelados".

Ana Paula Maia descreve essas vidas miseráveis e brutalizadas com crueza, mas também com um lirismo insuspeito, oferecendo ao leitor duas narrativas muito bem resolvidas sobre um mundo que vai para baixo, sempre para baixo.

* Autor do romance Hoje está um dia morto e do volume de contos Paz na terra entre os monstros, ambos lançados pela Record

Para ler no site do jornal, clique AQUI.

*That´s all folks*

4 comentários:

André Porfiro disse...

Tem uma nota, na Folha de São Paulo, sobre o seu livro. No caderno Ilustrada, seção, Vitrine. "Escritora carioca, cresceu na Baixada Fluminense...." Isso me chamou a atenção, morei em Nova Iguaçu e vc. onde cresceu da Baixada Fluminense?

ana paula disse...

Nasci em nova iguaçu tb.

puxa....queria ver essa nota. na internet não consegui.

André Porfiro disse...

poxa, só hj vi sua resposta. ontem coloquei os jornais no lixo. se conseguir, escaneio e te mando. Em Nova Iguaçu teve alguma participação no movimento cultural? Já lançou ou vai ter algum lançamento,por esses dias do seu livro? Quero ler, depois envio comentários.

Anônimo disse...

Obrigada, mas consegui o jornal. Comprei numa banca ao lado do meu prédio. Não tenho nenhuma ligação com Nova Iguaçu, nem nunca tive. Não moro lá há anos. E quando morei, não tive contato com o nicho cultural local. Nunca cheguei a conhecer.

abçs.
ana paula maia