domingo, julho 05, 2009

Dos durões de ontem e de hoje.

O texto deste post não é meu, logo abaixo vem a reprodução de uma crônica escrita por Felipe Pena publicada no JB desse fim de semana.

Mas antes, vou deixar aqui um pouco das minhas vertigens e aspirações. É do Sergio que estou falando. O Sergio é fascinante, vocês concordam? Fazia tempo que não citava um durão aqui.

E durão por durão, o Felipe até que é bem durão. Um dia numa ida a Ipanema, debaixo de muita chuva, ele disse ter um guarda-chuva no porta-malas. Eu não deveria me preocupar. De fato, o homem tinha um ombrelone, desses de praia, bem colorido e caminhava despreocupado pelas ruas caras e ensopadas de Ipanema desfolhando as árvores em busca de um restaurante para jantarmos. É um durão pequeno-burguês, mas é um durão.


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A Flip esqueceu do coitado

Felipe Pena *

Tão difícil quanto pronunciar paralelepípedo é encontrar um autor brasileiro de ficção na lista dos dez mais vendidos. Se você não é mago, pesa menos de cento e trinta quilos e está longe de compor a trilha sonora de sua geração, esqueça: seu destino é perpetuar o ciclo de minúsculas tiragens do romance nacional. No máximo, três mil exemplares e algumas resenhas feitas por amigos que dividem o chope no bar da esquina. E, é claro, as posteriores lamentações por não ser conhecido do grande público.

São uns ignorantes, você dirá. Incapazes de entender sua proposta temática e penetrar no brilhante jogo de linguagem com o qual conduziu a obra. E jogará os mesmos paralelepípedos que não consegue pronunciar nesses bárbaros incultos, torcendo para que rachem suas cabeças limitadas. Vender é uma heresia. Quem precisa de público? Leitores pra quê? Quem gosta de platéia é foca amestrada. Você é um artista, um intelectual. Tem o reconhecimento da crítica e sempre é convidado para os principais festivais de literatura. Você é um sucesso. Até que...

Para seu espanto, o curador da Feira Literária Internacional de Paraty esqueceu de incluí-lo na programação. Não é possível, deve haver algum engano. Logo você que tem tanta intimidade com os paralelepípedos da cidade! Conhece-os pelo nome, pela tez! Só pode ser coisa daquela invejosa que criticou seu último livro! Minha filha, liga pra editora!

Você vê a lista de convidados na internet. Maria está na mesa de abertura: isso combina mesmo com ela, é uma coadjuvante. João participa do debate de sexta à noite: vai ficar vazio, todo mundo bebendo nos bares. Meu Deus, Jorge está no horário nobre! Só porque ganhou o prêmio da tartaruga no ano passado? É um absurdo! E se esquece de que ganhou o mesmo prêmio no ano anterior, motivo pelo qual foi convidado para o evento.

Prossegue na digestão da lista. O estômago arde, a boca resseca, o fígado desapareceu. Andréa vai falar no sábado? Só porque vendeu dez mil exemplares daquele livrinho de memórias disfarçadas? Leitor sério não se interessa por isso. A crítica destruiu essa garota. Aninha também está na mesa? Mas essa é ainda mais nova! Onde vamos parar? E ainda tem o Sandro, o Rui e o Chico. O Chico? Quem é esse tal de Chico? Alguém me diz quem é o Chico, por favor!!!

Você se desespera. Dá um soco na tela do computador, bate com a testa no teclado. Outros ilustres desconhecidos aparecem como convidados de honra. Nunca ouviu nem ouvirá falar neles. São comerciais, escrevem fácil, agradam o público. Vendilhões do templo, não sabem nada de literatura. São como esses jornalistas que fazem ficção, reis da superficialidade.

Para você, a literatura é experimentação, é linguagem, é invenção. A história não tem a menor importância. Quem se importa com isso é leitor barato, sem erudição. Você sabe que a literatura é a única arte em que ainda permanece essa divisão entre erudito e popular. Em todas as outras há misturas, fronteiras híbridas. Melhor assim: mantém nosso feudo.

A linguagem acessível não é literatura. Contar uma história não é literatura. Só o que você faz é literatura. Mesmo que seja chato, hermético e besta. Não importa. Você escreve um livro e pergunta: tá vendo como sou genial? Tá vendo aquela passagem? Entendeu a minha sacada? Fui eu que fiz!

A história é só um detalhe. Seu nome na capa é o que importa. Mesmo assim, estanha que suas tiragens não passem dos três mil exemplares. Você faz como os outros, não é diferente. Segue a cartilha da crítica acadêmica, tem amigos na imprensa, frequenta as festinhas. Não dá pra entender. Por que só você ficou de fora da festa?

A resposta está no jornal. É o efeito flip. A feira literária projeta os escritores, faz aumentar as vendas, cativa o público, chama a atenção dos editores. Vinte mil pessoas passam pela cidade, pisam nos paralelepípedos, ouvem palestras, assistem a shows, participam de oficinas, compram livros. Mas você é contra tudo isso. Quer continuar com sua panela elitizada, na alta cultura, no umbigo sardento da erudição.

Eventos como a Flip mostram que a literatura não pode ser um clube de comadres. A participação do público e o interesse pelos escritores avalizam a idéia de que o texto é uma forma de expressão com potencial para atingir a sociedade no horizonte maior, sem se limitar a uma elite.

Mas você conhece os paralelepípedos e não vai se sujeitar a essa falsa democracia. Ainda bem que não foi convidado.

  • Felipe Pena é jornalista, professor da UFF, doutor em Literatura pela PUC-Rio e autor do romance “O analfabeto que passou no vestibular”.

  • *That´s all folks*

Um comentário:

Simone Campos disse...

Pô, concordo com o texto. Mesmo assim, acho a Flip chata. Eu gosto de lugar que vende livro barato, isso sim - e nem as Bienais do Livro cumprem mais esse papel, agora é só sebo e promoção em livraria virtual...