quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Erasmo Wagner

Hoje estive numa fila de banco. Entre as mãos um exemplar aberto de "O Jogador", de Dostoiévski. À minha frente, na fila, havia um homem. Via apenas as suas costas um tanto arqueadas. Algumas passadas, e quando me tornei a penúltima a ser atendida, o homem das costas um tanto arqueadas se colocou de lado e pude ver o seu rosto. Pronto. Eu não consegui mais ler. Mative o livro aberto apenas como um refúgio ocasional para meus olhos, mas ali estava, bem na minha frente: Erasmo Wagner, o protagonista da novela "O trabalho sujo dos outros".

Meu coração acelerou. Ele tinha um danado de um olhar que todos os meus personagens têm. O olhar de já ter vislumbrando tantas coisas. Mas tantas coisas que se pode esbarrar no infinito.

Eu não sou boa em disfarçar. Eu ficava mesmo olhando para ele. Admirada. A sua pele era torrada pelo sol. Tinha uma imensa tatuagem no braço, coisa que o Erasmo não tem, mas poderia perfeitamente ter.
As costas um tanto arqueadas me davam a impressão de já ter suportado muitos fardos. Seu rosto era sofrido, mas não piedoso. Uma rosto vincado de expressões que o sol foi fossilizando. Sabe do que estou falando? Quando se toma sol demais, sua pele racha e suas rugas ficam mais evidentes. Daí a impressão de fossiizadas pela sol.

Bem... eu fiquei um pouco atortoada. Ele estava à minha frente e de lado para mim, olhando para o infinito. Mesmo dentro de uma porcaria de banco aqueles olhos atingiam limites que raramente outros atingiriam.

Sinceramente, foi assustador.

Nunca imaginei que num dia de sol escaldante numa porcaria de fila eu mesma vislumbraria algo que antes estava espremido entre parágrafos. De fato a literatura é muito mais viva do que havia imaginado.


*That´s all folks*

2 comentários:

Mauro Siqueira disse...

Esses encontros assustam né? Fazem dar outro peso para a literatura; literatura como antecipação, como ouvi de uma professora de literatura. Ai, você lê algo uns dois posts abaixo, como isto, e tudo fica mais real. Não?

"quando percebo essas coincidências, acho que sou influenciada pelo que escrevo e não escrevo pelo o que sou influenciada.".

Veriana Ribeiro disse...

meu deus que inveja, você conheceu o erasmo wagner!