sábado, março 18, 2006

Desconcertos nº 1

Athayde Patrese, apresentador de tv e colunista social, confessou meses antes de morrer, que se arrependeu de ter doado o rim para seu filho, há uns 19 anos. O rim de Patrese durou 12 anos no corpo do rapaz e depois, foi para o lixo. Ou cemitério de órgãos e membros decepados, ainda não sei se existe um desses.

Ele disse que se imaginasse que seu rim fosse apodrecer em seu filho anos depois e que o dele não fosse dar conta de filtrar todas as porcarias de seu corpos, todos os drinks e goros, tudo simplesmente um luxo, ele jamais teria doado.

Está em cartaz um espetáculo chamado “O Rim”, escrito por Patrícia Melo, que narra a história de uma mulher que doa um rim para um sujeito por quem está apaixonada e este a abandona e parece que ela irá requerer o rim de volta. Não sei ao certo, mas essa questão de doar órgãos, mais especificamente, o rim, anda em alta, quer dizer, em pauta.

“Ana Paula, garota, você às vezes é doentia.” Sou pacifista. Tranqüila. Nada, nada doentia. Mas é que quando eu escrevo a mesma coisa, muito antes, (já que parte do folhetim está pronta faz dois anos), de forma mais extrema, eu sou doentia, quando o Patrese diz que se arrependeu de doar o rim para o filho anos atrás, já que nem o filho pode desfrutar o rim por tanto tempo e o mesmo acabou descartado, entra em pauta a questão do dever ou não de doar órgãos.

Para quem está acompanhando o folhetim, um dos personagens doou o rim para sua irmã, mas o que ficou não está bom, então ele decide pegar seu rim de volta com a ajuda de seu melhor amigo Edgar Wilson, que abre porcos diariamente, com muita habilidade. Isso ocorre no capítulo 6. Eles usam um canivete e o colocam dentro de uma bolsa térmica. Dá certo, até um imprevisto acontecer capítulos depois.

É esdrúxulo, espreme a realidade contra os dedos, mas é humor negro afiado e violência amolada, como costumo dizer.

Não gosto dessa coisa de “Ahhh.... esse livro é um soco no estômago.” O novo trabalho do MVBill, segundo a chamada num jornal diz que “será um soco no estômago dos brasileiros”. O projeto “Falcão – Meninos do Tráfico” será lançado em documentário (exibido nos Fantástico), livro e álbum. É evidente que se não desse um gordo lucro, não sairia em formato triplo. Aceitem ou não, estamos nos tornando como nossos irmãos do Norte (América), aprendendo a vender nossas mazelas, escândalos, enlatando tudo numa bela embalagem, alardeando numa grande promoção publicitária e vendendo. Isso, eu aceito, só não aceito a hipocrisia de se dizer que isso é para abrir os olhos da sociedade. Isso é para gerar dinheiro. Assim como uma prostituta escreve suas aventuras sexuais e vende milhares de exemplares, os meninos do tráfico também e as garotinhas prostitutas do nordeste, se souberem escrever minimamente, estarão encabeçando um novo potencial de mercado.

Não sou contra a venda do produto, mas odeio quando dizem que tal creme reduz a celulite e não reduz. Odeio quando dizem que tal xampu anti-caspas é mesmo eficiente e continua a nevar sobre meus ombros sempre que me mexo. Uma coisa é certa, toda a sociedade brasileira está de olhos abertos, e mãos no bolso para segurar suas carteiras e esconder seus relógios, até os mais vagabundos.

Peloamordedeus....... mais socos? Precisamos de mais socos? Não basta as porradas diárias nos juros do cartão de créditos, no aumento das passagens de ônibus, no preço do combustível, no lixo da educação, no preço dos livros que quero ler, na porra do frango contaminado, no esgoto aberto em alto-mar, no Marcos Valério, na puta roubalheira, na péssima e enjoada sexta edição do Big Brother Brasil, no Kadu Moliterno espancando a mulher durante anos. O Juba e Lula.... um tipo de herói da década de oitenta?

Ainda precisamos que venham dizer mais e mais sobre o que acontece com os meninos do tráfico, com a porra do morro? Agora tem a denúncia, mais uma vez, da exploração das menores no nordeste. Os gringos vêm foder garotinhas. Mas precisam ser bem novinhas. Quinze anos já estão velhas.
Temos assunto para uma tonelada de dossiês, uma tonelada e meia, se pensar bem.

Comecei falando do rim do Patrese e terminei nas putas do nordeste. Sinceramente, não sei onde me perdi, onde me achei, o que queria dizer. Mas tudo isso é simplesmente um lixo.



*That´s all folks*

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