segunda-feira, abril 24, 2006

Tempo de coagulação


O domingo foi de clima agradável, temperatura amena, sol suportável, ânimo equilibrado. Assim foi o meu domingo, que já é quase ontem, pois vou encerrar este post na madrugada. Cinco minutos para amanhã e amanhã não sei como será o tempo, mas terei um tempo cheio. Muita coisa pra fazer. Deve dar tempo. Assim espero. Se não der, eu espremo os minutos em segundo prolongados. Física quântica. Star Trek. Relatividade especial e geral. Einstein na minha cabeceira ao lado de Poe. Paro para analisar a simetria de ambos. A relatividade de Einstein e a de Poe. Um explica os breves espaços dos instantes que não entram em minha cabeça dura. Adoro física porque não entendo nada do assunto. Tenho um amigo engenheiro que me explicou de modo simples a teoria da relatividade em uma balada entre goles de cerveja.
Durante 1 minuto, se você come um doce que gosta muito, existe a vontade de prolongar este prazer e temos a impressão de que esse minuto passa muito rápido, não nos damos conta. Esta cerveja, por exemplo, eu tomo dois goles e ela acaba quando eu começo a apreciar. Agora, se te derem um choque elétrico durante um minuto, um choque que agüente, você terá a impressão que aquele minuto nunca passa, que ele dura muitos minutos, entendeu?

Balancei a cabeça e fiz hum hum. Deixei coagular no frasco dos meus pensamentos os bons e maus minutos. Coagulados, me deixaram ainda mais sem saber.

Enquanto Einstein com números e fórmulas me parece explicar essa brevidade e prolongamento dos instantes, Poe consegue a mesma coisa com as palavras. Ele estica instantes e o transforma em horas de sofrimento intermináveis, em parágrafos terríveis de dor e beleza. Não é à toa que são geniais. Talvez por que haja simetria entre gênios.

“Apalpando os tijolos, pouco abaixo da boca do poço, consegui deslocar um pequeno fragmento e deixei-o cair no abismo. Durante alguns segundos, fiquei atento aos seus ruídos, enquanto, na queda, batia de encontro às paredes do poço; por fim, ouvi um mergulho surdo na água, seguido de ecos fortes”.

[O poço e o pêndulo _ Edgar A. Poe]

Num clima assim, decidi colocar mais um conto no link ao lado. Faz parte de uma coletânea de contos publicada no ano passado. Chama-se “Teu sangue em meus sapatos engraxados”, e assim como segundos estendidos, há neste conto uma dor terrível, inesgotável. Para ler, clique AQUI


*That´s all folks*

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