segunda-feira, julho 03, 2006

Brigar por quem, professor Braga? Por mim ou por você?

“Eu odeio quando faço isso. Ficar tentando encontrar uma compensação pras coisas. Fico parecendo um conformado. De fato a maioria das pessoas que eu conheço são conformadas ou acomodadas. Tive um professor de história chamado Braga que tenta ser diferente das outras pessoas. Ele era um sujeito muito empolgado e passei a gostar de História por causa das aulas dele. Conseguia até mesmo não dormir mas ele tinha uma mania que enchia o nosso saco. Fazia o tipo revoltado. Politicamente inconformado marxista esquerdista anti qualquer coisa que vinha do Planalto dizia sempre que a gente era muito pacato sem disposição e que nada iria mudar se a gente não tomasse uma atitude se rebelando contra a opressão disfarçada de democracia. E que na época dele ele foi pras ruas e apanhou dos militares sem falar que contava milhares de vezes sobre uma vez em que foi apanhado numa manifestação estudantil e colocado no Coração de Mãe, que era um camburão onde a polícia colocava todos os baderneiros e foi torturado por duas horas. Ninguém aquentava mais ouvir aquilo. Lá na minha turma ninguém tava nem aí pra nada. Até que eu me irritei com aquilo e escrevi um bilhetinho pra ele. Não queria magoar o cara porque ele era legal mesmo mas eu precisava dizer aquilo.


“Professor Braga, eu gosto muito das aulas do senhor e aprendo muito com elas. Mas tem uma coisa que eu preciso falar e não quero que o senhor me leve à mal. A gente não agüenta mais a estória da ditadura e da manifestação estudantil quando o senhor foi preso e torturado. A gente está muito distante disso tudo e a verdade é que temos computador portátil, games, DVD, McDonald e tv à cabo. A gente não vai fazer absolutamente nada. Por favor, não me leve à mal mas é que o senhor se empenha tanto que eu me sinto na obrigação de lhe dizer que ninguém quer ir para as ruas brigar. A maioria do pessoal daqui quer ir mesmo pra Disneylândia e assistir ao próximo filme de Star Wars, episódio 2.”

Ariel Esperanto.


Entreguei a dona Zélia que trabalhava numa sala ao lado da sala dos professores e que era muito boazinha. Pedi que ela entregasse o bilhete a ele pra mim. Me lembro que na aula seguinte eu fiquei morrendo de medo que ele tivesse ficado com raiva. Mas não. Ele nunca mais tocou no assunto da tal manifestação, mas percebi que naquele dia ele não estava tão animado como de costume. Depois passou. Eu sabia que ele tinha lido mas nunca comentou nada comigo. Era uma grande figura.”

[O habitante das falhas subterrâneas _ ana paula maia]
*That´s all folks*

2 comentários:

Ronnie Kelby disse...

Belo trecho. É aquele tipo de idéia ou pensamento que o pessoal da nossa geração tem ao se deparar com essa espécie de saudosismo doentio dessa coroada mas não se lembra de expressar. Gosto das passagens onde o óbvio é expresso como algo realmente novo, como algo que todos aparentemente sabem, mas que por diversas razões permanecem por algum tempo implícitas. Assim vc me convence a comprar seu livro :) ...

ana paula maia disse...

tá esperando o quê? Vá comprá-lo!
Tem muito mais de onde saiu este trecho :)

valeu