segunda-feira, outubro 23, 2006

* “Pouco a pouco foram esmaecendo os murmúrios e os latidos lamentosos”

Ando irritada, confesso. E tudo por causa de uma cambada de bastardos. Passei dois anos da minha vida pensando em como matar, esquartejar, ser precisa e colocar tudo em parágrafos. O sol brilhava e eu escrevia. A chuva caía e eu escrevia. Durante um tempo, digo um bom tempo, tive diversos nomes, reputações, estatura, cor de cabelo, tom de pele, e mais outras coisas. Aprendi a falar firme, sacar uma arma, ser compreensiva, a considerar os amigos, a sussurrar para ser ouvida somente o mínimo. Aprendi sobre golpes de boxe, sobre como matar porcos, fabricação de vinho e como disfarçar a tristeza. Também entendi que a solidão leva a loucura e a loucura à solidão. Vi que culpa não se expurga, se regurgita.
Está tudo em vinte capítulos. São os capítulos da minha última vida. Vida em ficção. E foi mais intenso que minha última realidade. Adoeci quando terminava o livro, então entendi como os artistas se arrastavam em dores sobre suas obras. É horrível.
Aí, você se cura e parece que o que você escreveu era mesmo uma doença. Não sei onde eu estive durante esses dois anos. Não vi muita coisa aqui do lado de fora, mas do lado de dentro tinha tanta imundície, que como já disse, adoeci. Mas fiquei boa.
Aí, escrevi algumas coisas só pra distrair. Doentes amenizam o efeito de algum remédio tomando outro remédio. Escrevi um conto. E depois de algum tempo foi pro lixo. Me pediram um conto para uma antologia. Aí, fui lá na lixeira de casa e procurei o que tinha de sobras... sei lá... a gente pode dar um jeito. Se não fosse um arquivo perdido no micro, ele teria sumido pra sempre. Vendi o conto. Outro organizador queria muito colocá-lo também em sua antologia. Dois agora o queriam. E antes estava no lixo. Parece que será o conto inaugural de abertura do livro. OK.
A culpa deve ser dos bastardos. Depois deles eu mudei. Parece que perdi alguma coisa e ganhei outras. Ele pula de um lado para o outro. Os editores ainda não decidiram o que querem com eles. É triste e parece que eu e todos os bastardos nos sentamos no escuro para lamentar. Eles ficam em silêncio e eu também... mas é um silêncio de lamento, eu sei disso. Eu criei os filhos da puta.
*(Fidelino de Figueiredo)
*That´s all folks*

3 comentários:

Diogo Costa disse...

Me faz pensar... Mas vou guardar aqui comigo, por um tempo. Cool Jazz, do Miles Davis, pra remediar. A necessidade parece engraçada, mas, deve ser engraçado mesmo. "A gente" mata porquinho, policial burro, velhinha, presidente. Depois chega a dor, o alívio, o mal cheiro, o nojo... Mas escrever é divertido, até.
É isso mesmo. É isso mesmo.

Abraço Ana.

Diogo.

Diogo Costa disse...

Ah sim, publicaram um conto meu "Mastigando Línguas" no Cronópios. http://www.cronopios.com.br
Se você gostar do drink que fiz, me fala.
Abraço.

ana paula maia disse...

Olá Diogo! Vou lá ler e falo sim!