quinta-feira, outubro 26, 2006

Às vezes, só quero cruzar um campo de cereal com a minha bicicleta.


Assisti ao trailler do documentário norte-americano, Camp Jesus. Me lembrei do filme Colheita Maldita. Um acampamento para crianças evangélicas aprenderem a ser comportar como no exército. São os futuros homens-bombas norte americanos. Já que eles não têm representatividade alguma nesta categoria, estão se dando conta que em nome de Jesus, podem defender melhor seu país. “Nossos homens-bombas são mais santos que os seus e explodem em reação em cadeia, provocando muito mais estragos”. É um bom release. Mas continuo apostando no pessoal do Oriente Médio, eles tem muita tradição neste ramo.
O que admiro neles é que cultuam Jesus da mesma forma como cultuam Star Trek e a Oprah Winfrey. Haha.
Mudando de assunto, estávamos eu e meu amigo Henry, Henry Brachel é como se chama. O nome é bonito e um tanto pomposo. Ele é bonito, porém nada de pomposo. O que acho ótimo. Posso falar dele à vontade, pois não usa computador e nunca navega na Internet. É um excêntrico. Como passo muito tempo no computador, posso sentir nele um instante de décadas passadas. Ele só tem calças pretas de tecidos que não amarrotam e camisas brancas. Usa sempre o mesmo coturno preto e para aliviar, um tênis All Star preto. Henry tem toda uma filosofia de vida, que ainda não entendi muito bem qual é.
Quando tinha uns dezesseis anos, empurrou o irmão de uma sacada. O irmão caiu e quebrou a espinha. Ficou tetraplégico. A família gastou muito com o tratamento e Henry era obrigado a fazer coisas divertidas na frente do irmão, como encenar peças teatrais, exibir filmes e comentá-los e ler histórias. Henry não gostava muito de ler, mas era obrigado. Depois da aula, ele cuidava da diversão do irmão que se chama Leonard, assim mesmo, sem o “o” no final.
Eles estavam brincando na sacada, é o que ele diz. Henry achou um rato morto e jogou no irmão que levou um susto e se desequilibrou da sacada. Foi uma fatalidade, então por isso acha que deve encontrar um modo de vida que o faça expurgar seus pecados. O estranho, é que nunca acharam esse rato morto que ele disse ter jogado no irmão. Acontece que acabou se apegando a leitura. Agora vive lendo uma coisa e outra.
Justamente como eu dizia, antes de dizer quem é o Henry, estávamos na livraria do Paço Imperial no centro da cidade. Ele queria comprar um exemplar do Lolita, do Nabokov. Ele nunca leu esse livro. Nunca mesmo. De tanto molestar uma prima, ela foi para um convento aqui do Rio. Não suporta homens e todos acham que é uma freira sapatão. Ela acabou contrariando a família, que é judia, e deu um rolo danado. Henry sabe que é um filho da puta. Eu mesmo, digo isso pra ele. “Henry, você é um filhadaputa”, é como eu falo. Ele ri e diz que me adora. Agora, ele acha que pode ler Lolita.
Enfim, o livro é bom pra caçamba, o mal que fez a prima já não pode ser desfeito, sendo assim, não vale a pena sacrificar o Nabokov por algo irremediável. Eu concordo com ele. Não havia nenhum exemplar na livraria, então decidimos tomar um café e depois nos separamos na rua. Voltei pra casa e fui andar de bicicleta. Porém, não tinha nenhum campo de cereal para cruzar.
*That´s all folks*

3 comentários:

Fredson Novais disse...

esse post me lembrou o livro Sobrevivente, do Chuck Palahniuk. vc já leu?

Jussara disse...

Olá! - estou lendo seu outro blog "entre rinhas de cachorros e porcos abatidos" - ainda estou no começo da história, mas estou adorando! parabéns!

ana paula maia disse...

Oi, Fredson! Quero muito ler este livro. Está na lista.

Jussara, bom que está gostando. Quando concluir, passe para dizer o que achou.

abraço aos dois.